Sob o Luar de Outono

Nem uma gota!


Foi apenas uma gota 
Que lhe escapou entre os dedos, 
Mas para ele isso fora 
O espoletar de muitos medos. 
O sono deixou de pesar 
Nas pálpebras que não cerravam 
E à volta da cama do seu lar 
Havia espectros que dançavam. 
Mandou, então, erguer altos muros 
Trabalhados, de cores claras, vibrantes, 
Reforçados, sem brechas ou furos,  
Que da água se tornaram vigilantes. 
  
Nem mais uma gota fugiu, 
Nem mais uma passou para o prado, 
E a árvore que antes sorriu 
Com a gota que tinha escapado, 
Vergou os ramos, antes frondosos,  
Deixou cair todas as folhas, 
Ficou esqueleto, só com ossos, 
Riscou a vida das escolhas. 
 
As pessoas, de peito arquejante, 
Sem qualquer verde no horizonte, 
Bateram na parede gigante 
Que barrava, da água, a fonte. 
De gotas, uma apenas chegava, 
Por favor, para as plantas regar! 
Mas ele dar não precisava, 
No seu jardim, ele tinha ar. 
 
Com a garganta como a terra, 
Choraram, imploraram por justiça, 
E eis que do alto do muro ele berra, 
Do alto do muro, ele os atiça: 
— Quem roubou a gota, eu vi, 
Foram os do país distante, 
Os que vieram para aqui 
Deixar um deserto escaldante. 
E sem pensar adiante, a turba carregou 
Sobre quem o copo vazio estendia, 
Por acreditar que era quem roubou 
A gota que tanta falta lhe fazia. 
 
Dentro dos muros trabalhados, 
Altos e sem qualquer dano, 
Deleitava-se ele a ver os céus serem tocados 
Pelo lago que era oceano. 
Passeava pelos jardins coloridos 
Com árvores verdes de ramo forte 
E frutos prontos a ser colhidos 
Para que à fome lhe dessem morte, 
Embriagando-se com os odores 
Que se misturavam no ar 
Vindos das muitas flores, 
Frutos e terra de cultivar. 
 
Lançou-se ao líquido de cristal, 
Deslizou suave no seu seio, 
E a água num toque passional 
Deixou-lhe o corpo em devaneio. 
Envolveu-o num abraço forte e doce, 
Entre mergulhos e braçadas vigorosas, 
Sem um anseio, por mais pequeno que fosse, 
Sentia na pele as carícias gulosas. 
 
Com a êxtase, passou dissimulada 
A dor que na perna nascia, 
Mas depressa a deixou toda crispada, 
Trazendo à calma, entropia. 
Contorceu-se em desespero, 
Sentiu o corpo a afundar 
E, tomado pelo medo, 
Pediu socorro, pôs-se a gritar: 
— Ajudem-me! — gritou aos céus — 
Venham, venham a correr! 
Dou-vos todos os pitéus, 
Dou-vos água para beber! 
 
Mas quem o podia ajudar? 
Quem podia saltar a muralha, 
Correr e ao lago se lançar 
Para o salvar da líquida mortalha? 
Quem, de entre os paisanos, 
O puxaria lá bem do fundo, 
Se fazia mais de dez anos 
Que morrera de sede o mundo? 


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  Andamos a lutar entre nós por uma migalha quando há quem reserve só para si o banquete que podia alimentar o mundo.

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