Icei as velas, lancei-me ao mar
Chão por onde deslizo sem parar,
Levada por um vento de popa
Que a vela deixa louca
Ao ponto de quase uivar
(Mas sem lá chegar: só sussurrar).
Fecho os olhos e deixo a maresia
Inebriar um arrepio pela espinha
Enquanto o vento me dá um beijo
E espoleta o desejo
Duma dentada forte e sentida
No melhor que dá a vida.
A sede pede uma laranja,
Mas tal não há, não se arranja:
No porão só há limões
E gritam-me as multidões:
— Se a vida dá, faz limonada.
Eu espremo, não sai nada,
Apenas o ácido do fruto
Que a minha pele deixa em luto.
E gritam-me novamente:
— Que falhanço como gente.
Se fosse eu, era certeiro:
Vendia sumo ao mundo inteiro.
O céu carrega num momento
De abrigar, não dá tempo:
Cai a gota no meu rosto
Anunciando o desgosto
De ventos que sopram em rajada
Contra os quais não posso nada.
— Ajusta as velas — gritam em coro,
Não compreendendo o meu choro:
Não há nada para ajustar
O vento tratou de as rasgar.
Vêm as ondas e o seu topo
Arranha o céu, que sem conforto,
Rosna e ilumina a noite
Punindo o mar com um açoite.
Com velas desfeitas a traço fino
E mãos queimadas pelo citrino,
Agarro o leme em movimento,
Que não pára nem um momento,
Numa batalha desigual,
Não para o bem, mais para o mal.
Lá longe na esplanada
Ouve-se a luta comentada:
Para uns, forte, porque aguento;
Para outros, fraca, um desalento,
Por porto seguro não encontrar:
— Se fosse eu, estava a atracar.
O barco range e abana
Sem controlo, traça a trama
De me levar rumo ao penedo —
Aquele alto, enorme rochedo! —
E ouço, em desatino:
— Se a vida põe pedras no caminho,
Faz com elas um castelo.
Como se naquele duelo
As escarpas fossem seixos
Capazes de satisfazer desejos
De protecção segura elevar
Naquele imenso, irado mar.
A rocha fere, sem dó, o casco.
Tudo guina, quebra o mastro,
Estou na água, com unhas e dentes
Aos destroços contundentes
Agarrada, em carne viva —
A dor profunda faz-se nativa —,
Luto, exausta, contra a morte.
— Põe-te a nado, tens que ser forte:
Deus dá o frio conforme o capote.
Gritam as pessoas, de chá na mão,
À lareira, quentes que estão.
Palavras ouvidas em sofrimento
Com a água pulmões adentro.
No meio das flores para mim
Contaram como eu não resisti,
Ao contrário deles, vencedores,
Capazes de superar horrores.
— Estivesse eu no lugar dela,
Navegaria lesto e sem mazela,
Era só as velas ajustar
E deixar o barco deslizar.
Ontem, tempestade semelhante
Venci com destreza brilhante.
Dizia o nariz empinado
Depois de, em esforço, ter passado
Um lago raso de brisa levantada,
Para ele tormenta danada,
Concluindo puxando dos galões
Naquele lago das superações:
— Cai à água, em baixo toquei,
Mas vim ao cimo, não fraquejei!
E as mãos que ajustaram velas
Quando brisas sopravam nelas —
Num barco abrigado na baía
Onde o fundo do mar se via —,
Colocaram flores na morada,
A minha última registada,
Papagueando superioridade
Na luta contra a adversidade
E criticando quem não conseguira
Da areia imersa subir à vida.
Viveram lá eles a força bruta
Que comigo travara a disputa!
Sabiam lá eles o quão profundo
Era o leito do mar no meu mundo.

Na vida, que a todos é singela,
Nem sempre é possível ajustar a vela;
Nem sempre se consegue fazer a limonada,
Ou o castelo com as pedras da estrada.
Às vezes a tempestade que nos encontra
Devasta céu, terra e mar de ponta a ponta
E não há luta com gana e garra que nos valha.




Não menosprezes a luta dos outros: não sabes o quão revolto e profundo é o seu mar.

«A vida é um mar revolto em dia de tempestade, repleta de treinadores de bancada.»
SC (grande amiga)

É muito fácil caminhar com os sapatos dos outros quando não se tem de os calçar.
