Sob o Luar de Outono

Protesto em cruz

 

Foram em grupo, foram aos montes,
Desceram ruas, subiram pontes
Com arrojo em raiva forjado,
Marcharam em passo cerrado.
Indignados pela agonia
De serem a gente esquecida
Fizeram cruzes, mais dum milhão,
Para mostrarem da cepa que são.
— Em Portugal quem manda é o povo!
Não seremos calados de novo!
Gritaram em êxtase nas ruas
Quando os seus votos, quais fortes gruas,
Colocaram de lá para fora
Os governantes de outrora,
Trazendo para a casa sagrada
O populismo em vil manada.

— Agora é que vou ser ouvido
Em tudo o que me tem afligido.
Imigrantes fora, ai que glória!
Esqueçamos a nossa história
De gente que desta terra partiu
Rumo a um futuro menos sombrio.
Mulher em casa de perna aberta
Para, à-vontade, ser coberta.
E que o sonho da igualdade
Nunca atinja a maioridade.
Que os paneleiros só façam panelas —
Homem que é homem vai atrás "delas" —
E queimemos aquele que sente
O amor de forma diferente.
Coloquem-se sapos nas janelas,
Em todas as portas e portelas
No esquecimento fica a beldade
Que nos traz a diversidade.
Que belo mundo, o de agora —
Tudo no lugar, já era hora! —,
Reduzida que está a nação
Ao nível do ignorante poltrão.

— Mas nada muda? Eu não estou rico?
Continuo a valer um penico?
O país não anda para a frente?
O que anda a fazer esta gente?
Queixava-se no café da esquina,
Onde sempre chorado tinha
Da fraca sorte e dos governantes —
«Aquela cambada de ignorantes!» —
A multidão de matarruanos,
Quando um grupo de milicianos
Entrou de cassetetes em riste
E espancou aquela gente triste.
Pois no novo mundo que nascera
Das cruzes que com raiva fizera,
O povo que mandava no país
Deixou de ser senhor do seu nariz.
Saiu-lhes caro o protesto em cruz:
À liberdade roubaram a luz.
Sem reflectirem e sem reservas
Lançaram-nos a todos nas trevas.

 

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  A insatisfação popular leva, eventualmente, a grandes revoluções. Umas trazem cravos, outras escuridão.

 

 

 

 

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