Sob o Luar de Outono

Expatriada digital

 

Não sei para onde vou
Ou sequer se vou,
Se fico aqui perdida
Num limbo sem medida
Ou se escolho a multidão  
De todos os que «.com» são.
 
Eu não quero o meu pensamento
À guarda de quem, a qualquer momento,
Diz que eu não sou importante
Porque venho de terra distante.
E, em arrogância extrema,
Altera sintaxe, grafia, o meu poema,
Porque na minha geografia,
Que da Europa espia,
Somos, em número, nação mais pequenina
Do que a «grande» América Latina.
 
Quero guardar o meu labor
Onde lhe dêem devido valor,
Onde a minha identidade
Seja ouro da humanidade,
Onde me vejam como pessoa
E não um número que destoa.
Quero-o guardado ao pé de mim,
Na terra onde nasci.
 
Fiz as malas para a Europa,
Por lá dei uma volta,
E até o sonho europeu
Tem um «.com» que não é meu.
Zenblog e Writizzy, donde são?
Não é pelo endereço que saberão.
E nem sequer deixam escolher
Quem «.eu» quer muito ser.
 
Internacionalização
Não é perder o nosso o chão,
É, com orgulho, mostrar
Donde se vem, o nosso lar,
E a qualidade que cá se tem
Sem se passar por outrem.
 
Eu não sou americana,
Sou da paisagem raiana,
Sou de Lisboa, Porto, Faro,
Das nossas ilhas onde paro,
Sou deste país gigante —
Só pequeno no quadrante —
E quero mostrá-lo a quem lê
No meu endereço «.pt».
 
Mas fizeram-me o que de mais cruel
Se pode fazer a quem foi fiel:
O Sapo mandou-me embora,
Para longe, tão longe, lá fora.
Perdi o meu «.pt». 
E agora, faço o quê?

2026-05-02_Sob o Luar de Outono_Não sou americana

 

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  Não sou das pessoas que mais escreve, mas quando tinha algo a dizer (e achava forma do fazer) vinha aqui e publicava na minha página, construída de forma fácil a partir dum dos tantos modelos lindos que eram disponibilizados pela plataforma SAPO (acho que o mais difícil de fazer para construir o meu blogue foi escolher um modelo entre tantos tão bonitos. Acho verdadeiramente que, dada a variedade existente, era impossível haver alguém que não encontrasse algo a seu gosto).

  Era uma página limpa, sem estar carregada de publicidade, de faixas da plataforma, de fosse o que fosse senão o nosso texto e o que mais nós lá quiséssemos colocar. Até a própria plataforma do SAPO se colocava lá discretamente em segundo plano, deixando o brilho para os autores. São raras, se algumas, as plataformas assim.

  Com o encerramento dos blogues do SAPO não se perde apenas uma plataforma, perde­‑se um cantinho nosso, perde­‑se mais uma página «.pt», perde­‑se mais um pouco de Portugal nesse mar imenso que é a internet e donde estamos a desaparecer sem deixar rasto.

 

 

  Adeus blogs.sapo.pt!

  Fomos todos despejados, somos todos expatriados.

  Perdemos o nosso endereço «.pt».

 

 

 

 

 

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