Sob o Luar de Outono

Racismo é crime, machismo é liberdade de expressão

 

E se eu acordasse um dia,
Num delírio abjecto,
A pensar que é agonia
Ter de estar ao pé dum preto?
A achar ofensa profunda,
A tudo o que é mais sagrado,
Ter aquela presença imunda
Ao meu lado no trabalho?
Se eu gritasse em loucura
«O teu lugar não é aqui!
É a esfregar a negrura
Que eu no meu soalho vi!
Tu não tens capacidade
Para médico ou engenheiro,
A tua única finalidade
É obedecer e ordeiro!
Sem um branco para te guiar
Perdes-te pelo caminho,
Tal é a tua falta de pensar,
Típica do rosto escurinho.»?

 

O que aconteceria
Depois de dizer em público
Toda esta alarvaria,
Este pensar anacrónico?
De certeza receberia
Uma visita autoritária
Que célere me conduziria
À Polícia Judiciária!
Pois discriminar alguém,
Dizer a alguém que é menor,
Por algo que o corpo tem
Que não se controla, como a cor,
Não é só estúpido: é crime!
É hediondo sem dó atacar
Aquele direito sublime
Que todos temos ao bem-estar.

E aqui gerou-se a confusão —
Não entendia a diferença:
Ser atacado pela cor, não!
Por ter vagina, não há ofensa?!
Dizer a alguém que é inferior
Por ter na pele a negra cor
Dá cadeia imediata
E, talvez, até chibata.
Mas se a uma qualquer mulher
Publicamente se disser
«A mulher é limitada:
É doméstica e mais nada.»
Nada acontece, ninguém grita,
A polícia não vem na guita
Para levar para a prisão
A quem do seu bem-estar foi ladrão.
Em vez, invariavelmente,
Dizem em tom condescendente:
— Não partilhamos a opinião,
Mas é liberdade de expressão.

Mas que raio é isto, canastrão?
Não é tudo discriminação
Por se ter uma característica
Que não se controla, que é física?!

Não podia deixar isto assim,
Eu queria compreender
O que aquelas cabeças de xixi
Como diferença julgavam ver.
Fiz pesquisa minuciosa,
Observei tudo à minha volta,
Mas esta tarefa morosa
Não me estava a dar resposta.
E ao parar um pouco vi —
Fez-se luz de repente! —
A diferença que persegui
Estava bem ali à frente.
Tinha usado o pressuposto
De comparar o que acontece
Quando muda a cor do corpo
Contra o genital que se padece.
Um pressuposto errado
Pois isto não são dois casos:
Está tudo englobado
Num único e imoral atraso.
O que está aqui em questão
E que tudo bem explica
É a existência ou não
Duma grande erecta pila.
Quando se discrimina pela cor,
Algo ignóbil acontece:
Há dum pénis, um senhor
Que de descriminação padece.
Mas quando a mulher se discrimina —
Quando o alvo de preconceitos
É a senhora que tem vagina —
Não há pénis a perder direitos.

Assim se chega à conclusão:
Se a dor causada
Por gente malvada
Afectar um portador  
De pénis reprodutor
É crime.  
Se não,
É liberdade de expressão.

Deste desprezível teorema
Saem dois corolários
Que explicam, sem celeuma,
O triste fado dos ovários.

O primeiro tem a ver
Com a pele negra ser:
Se a alta concentração
De melanina na derme
Fosse apenas condição
Que a mulher se acomete —
Nela fazendo ébano filme —,
Mas nem um pénis negro existisse,
Racismo não seria crime,
Seria tema de coscuvilhice.
Algo discutido à mesa
Sem urgência ou pressa,
Com anedotas e leveza,
Numa amena conversa.

O segundo é uma dica
Que te vai dar muito jeito
Para a nossa área jurídica
(Vais parecer barra em direito!) —
Se um sério problema
Já há muito te apoquenta
E não sabes se o sistema
Te fornece a ferramenta
Que há muito procuras
Para acalmar as loucuras
Que te andam tanto a moer,
Há uma pergunta que podes fazer
E descobrir se leis o país tem:
Há com um pénis alguém
Que partilhe a tua aflição?
Se a resposta for "não"
Tenho uma notícia pesada:
Estás — com "F" grande — lixada!

E é neste mundo que vivemos —
Sem direito a bem-estar
Pois nas ruas que percorremos
Haverá alguém a gritar
Sempre, a cuspir amargura:
— O teu lugar não é aqui!
É a esfregar a negrura
Que eu no meu soalho vi!
Tu não tens capacidade
Para médica ou engenheira,
A tua única finalidade
É obedecer e ordeira!
Sem um homem para te guiar
Perdes-te pelo caminho,
Tal é a tua falta de pensar,
Típica tua, meu anjinho.
Estás amuada? É o tal dia?
Não tens nada que se me diga:
Tenho direito à opinião.
É liberdade de expressão!

E o sofrimento continua,
Neste e noutros anos afora,
Incerteza que perdura
Nos direitos por que se chora,
Pois o Estado aguenta firme
E berra sempre à nação:
— Racismo é crime!!!
Machismo é liberdade de expressão.

 

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  Defender a ideia da redução injusta de direitos de outros é uma agressão violenta à paz de espírito, ao sentimento de segurança e ao bem-estar geral dos visados. Como tal, defender uma discriminação injustificada não é liberdade de expressão: é violência verbal e emocional; é crime.

  Tanto os actos machistas como a defesa da sua legitimação são crime.

 

  «A minha liberdade termina onde a dos outros começa.»

  Defender a redução injusta de direitos de outros não é o exercício dum direito: é um abuso da liberdade própria e uma delapidação da liberdade alheia.

  Defender o machismo não é o exercício da liberdade: é o exercício da violência.

 

 

Notas finais

Racismo é crime:

Ministério Público acusa mulher portuguesa de racismo contra filhos dos actores brasileiros Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank
(Artigo da revista «Visão»)

Machismo é liberdade de expressão:

Passos Coelho apresenta manifesto contra "adversários da família" e "ideologia de género"
(Artigo do «Jornal de Notícias»)

Movimento Acção Ética vai propor “estatuto” e subsídio para a “mulher dona de casa”
(Artigo do jornal «Público»)

 

2024-04-16_Imagens para o blogue_Machismo e liberd

 

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