Quando me seguraste nos braços
E pela primeira vez te vi
Da solidão não ficaram traços
Tal a alegria que senti.
A felicidade transbordava,
Tão intensa que não controlei
A longa língua que saltava
Num frenesim, sem roque nem rei.
Fiz com ansiedade imensa
A viagem que me levava
Para onde, eu tinha crença,
Um novo lar me esperava
Com comida, água e cama,
Carinho e muito amor,
Abrigo da chuva e lama,
Descanso da alma sem dor.
Ouvi gritos da infância,
Mais braços virados para mim,
Tal era a abundância
De excitação: fiz xixi.
Grunhiste, ficaste zangado —
«Desculpa-me, foi sem querer,
De tanto ser abraçado
Esqueci-me de me conter.» —,
Mas tanta era a alegria
Da catraiada nesse dia,
Que logo voltaste a sorrir
E eu, o meu rabo a sacudir.
De noite, enrolado na cama,
Com o coração ainda a bater
Inflamado pela chama
Duma boa família ter,
Olhei do meu novo canto
Em volta para a cozinha,
Território do meu peito,
Felicidade minha.
Brincadeira, risos e festas,
Lambonices debaixo da mesa,
Que semanas lindas estas,
Não há lugar para tristeza,
Só um pouco de ansiedade
Quando saías sem me levar,
Mas voltava a serenidade
Ao som da porta a descerrar.
E eu para ti corria —
Amor da minha vida —
Tal era a alegria
De contenção desprovida.
«Estou tão feliz de te ter aqui!»
Dizia-te com o meu olhar,
Com altos saltos em chinfrim,
Para o teu rosto alcançar.
Sentia quando, ao entrares,
Uma nuvem negra te seguia
E mesmo antes de partilhares
Já eu os males do rosto te lambia.
No teu colo a minha cabeça,
Suavemente colocada
Para que a dura doença
Da tua alma fosse expurgada.
E agarrado a mim deixavas
Escorrer aquelas lágrimas
Que eu para sempre escondia
Com uma simples lambida.
Adorava o amanhecer
E quando o sol se recolhia
Pois contigo podia ter
Passeios em família.
A alegria era tanta
Que eu não compreendia
Porque a tua conduta
Era de quem revoltado ia.
E foi dor, um sobressalto,
Quando a tua voz nada branda
Disse um dia em bom som e alto:
— Tu vais para a varanda!
Onde o sol dava de chapa
Todo o dia, sem descanso,
Água sempre em falta,
A tristeza entrou de manso.
Nunca mais houve passeio,
Na laje deixei o meu cheiro,
Sempre na esperança,
Na decisão, uma mudança.
E quando pelo vidro te via,
Quando te aproximavas,
Com o rabo te sorria,
Com os olhos suplicava.
Mas tu fingias que não me vias
E só saía da varanda
Quando as crianças traquinas
Faziam a oferenda
De brincadeiras divinas,
Até se cansarem do brinquedo
E me mandarem novamente
De volta para o degredo,
Longe do amor e de gente.
E eu passava os dias
A olhar pela janela
A ver se me vias,
Se me tiravas da cela.
Veio aquele dia de Verão
Que se adivinhava tórrido,
A família em excitação:
Tudo em malas metido.
Abriram a varanda
E deixaram-me sair
Com eles em debanda
No carro me deixaram ir.
Era alegria, latidos —
Era novamente família! —
Os meus sonhos concedidos
Sem dor, já não sofria.
Tudo tão belo e perfeito,
Que me deixou desarmado
E pergunto hoje, desfeito,
Porque de tudo fui privado?
Porque naquela manhã azul,
Naquela jovem madrugada
Rumo às praias do sul,
Tu me deixaste na beira da estrada?

Se não tens capacidade para amar, não tens o direito de adoptar. Animais não são coisas, não são brinquedos, não são medicação temporária para a solidão. Animais de estimação são família.


Notas finais:
Animais de estimação: obrigações dos detentores
(artigo da «Deco Proteste», de 1 de Fevereiro de 2024)
Depois do “boom” de adopções no confinamento, há cães a serem devolvidos no Porto
(Notícia do jornal «Público», de 21 de Maio de 2021)
Em Portugal todos os anos são abandonados em média mais de 40 mil animais de companhia. Durante o Verão, o flagelo aumenta
(artigo do jornal «Expresso», de 26 de Junho de 2023)
Animalife
(Associação de direito privado que tem como objectivos fundamentais a promoção da cidadania, a protecção do meio ambiente e da saúde pública, o apoio a entidades de apoio animal e a protecção de pessoas em situação de vulnerabilidade com animais a cargo.)

