Sob o Luar de Outono

Insisto em marcar presença

 

Insisto em marcar presença
Num mundo que não me quer,
Por ter logo desde a nascença
Negado o molde que fere.
 
Ferve o ódio, vem o desdém
Chovem pedras no meu caminho,
Um sorriso não vem de ninguém,
Mas sigo rumo ao destino.
Marco o passo na estrada,
Faço das facas, pregos e vidros
Com que foi pavimentada
Muros altos e defendidos.
Dos pés feridos em combate
E das gotas de sal caídas  
Faço a massa escarlate
Que as pedras mantém unidas.
A minha casa, o meu castelo,
A fortaleza mais querida,
Tem na dor e sonhos de belo
A balada da minha vida.
Tem janelas abertas ao céu
E outras para a minha aldeia,
Onde as pessoas como eu
São tidas por tuta-e-meia.
Tem portas para entrar a vida,
Que fecho à loucura do povo,
À sua cruel investida
Contra tudo o que é novo.
 
Do meu castelo, eu vejo o mundo
De papelão, bem ordenado,
Tão igual, que lá ao fundo
Dos demais, não és achado.
Vejo das torres do meu forte
Gente maldita e perseguida
Como eu, deixada à morte,
Por se ter lançado à vida —
Na testa a ferro marcado
Por não ler p'la mesma cartilha:
«Não serve. Está rejeitado.
Falhou o molde. Não caminha».
 
Na minha casa, acendo a vela
Com carinho, noite e dia,
Para que dance à janela,
Para que vos sirva de guia.
Não desisto e aguento,
Com o corpo apedrejado,
Pois vale todo o sofrimento  
Ver o mundo a ser mudado.
Ver os moldes no chão, partidos,
Ter cores na mão e formas mil,
Sentir com todos os sentidos,
Sorrir lágrimas de dor gentil,
Num mundo que é meu também,
Onde me ergo, firme no chão,
Donde não me expulsa ninguém,
Onde ser sou, sem ser o que são.
 
E por ter esta esperança,
Este sentimento sincero,
Insisto em marcar presença
Neste mundo que eu não quero.

 

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  Vivemos num mundo que exige soluções originais e criativas de pessoas padronizadas desde a nascença, enquanto descarta quem vê, pensa, age ou sente duma forma diferente.

 

 

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