Sob o Luar de Outono

As minhas asas

 

Partiram-me as minhas asas
Antes de eu saber voar,
Chamaram a gaiolas, casas,
À escuridão, o meu novo lar.
Fecharam-me com trancas a porta,
Para que não pudesse ver
A vida que se transporta
Nas asas de quem as pôde manter.
 
Nesse meu reino onde as estrelas
E o Sol nunca brilharam,
Onde as flores e o cheiro delas
Nem na infância me perfumaram,
Olhava de mansinho pra pena
Que flutuara com discrição
Quando no berço, ainda pequena,
Entraram com mocas na mão.
Naqueles momentos de magia,
Sem que o senhor me visse,
Com cuidado e em vigia
Deixava que a pele sentisse
O toque suave e delicado
Que as costas em brasa deixava,
Lembrando onde tinham estado
As minhas asas de pena brava.
Em polvorosa ficava a mente
A imaginar um novo mundo
Onde o pano e o detergente  
Não fossem o centro de tudo;
Onde pudesse desenhar
Montanhas, lagos e dragões,
Pontes e máquinas de voar,
Chaves para todos os grilhões.
 
Deixava-me levar assim,
Por sonhos inexistentes,
Quando acordei e dei por mim
No chão, com dores estridentes.
Voltara o amo ao seu castelo
E acordara-me para a vida.
As ordens não cumprira com zelo,
Estava parada e não na lida.
Furioso gritava, sem parar:
— Não quero cá essas desordens.
É teu dever lavar e cozinhar,
Para sonhar, estão cá os homens.
A sociedade assim foi feita
Por ordem de Deus, nosso Senhor,
Se não cumpres há maleita,
A ti, ira divina, com vigor.
Este é o santo muro erguido:
Não se pode tirar uma pedra
Pois o equilíbrio será ferido
E a sociedade não medra.
 
Naquele momento no chão  
Sonhei com o muro a cair
E, em plena inspiração,
Saltei para a guerra a rugir.
Lembrei-me da minha pena
E das asas que me partiram
Para do muro ser base plena
Do qual eles se serviam.
Agarrei ali o meu futuro
Com força para não o perder:
— Eu só serei pedra do muro
Dos sonhos que eu vou erguer!
 
Todos nascemos com asas,
Mas, um dia, alguém decidiu
Que alguns podiam usá-las
E aos outros voar proibiu.
Quem foi, não sei, não descobri:
Alguém com voracidade tanta,
Alguém que quis os céus só para si
E fez do meu corpo a sua rampa.
Prostrada, olhei o horizonte
Com espanto e o sangue ferveu,
Pois, lá longe, o alto monte
E as montanhas tocavam o céu.
Com as costas de brasa, uma fonte,
Ergui-me, pés assentes no chão,
E parti para aquele horizonte  
Com a minha pena na mão.
Partiram-me as minhas asas
Para que não pudesse voar…
Mas descobri que tinha garras,
Força e vontade de lutar!

 

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  A exploração do trabalho e do corpo da mulher são as mais antigas, duradouras e universais formas de escravatura do mundo.

 

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  Sem paridade entre homens e mulheres a humanidade nunca atingirá o seu máximo potencial.

 

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  O potencial máximo do ser humano só é atingido quando se permite às crianças crescer livres dos grilhões dos preconceitos, dos papéis pré-definidos pela sociedade e dos seus estereótipos.

  Não lhes partam as asas: deixem-nas voar.

 

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