Tive um temor sincero
Numa manhã ao acordar
Por tudo o que quero
E não consigo deixar…
E pelo que não quero
E que insiste em voltar
Pelas mãos daquele que chora
Pelo tempo da outra senhora.
Escondem-se atrás da frase
«As mulheres são contradição»
Tendo usado como base
«Umas vezes querem, outras não.»
— Temos que ser nós a mandar
Pois elas sem rumo seguem;
Cabeças que não sabem pensar,
Não sabem aquilo que querem.
Ao saudosista de outrora
A explicação volto a trazer
Do que a mulher a toda a hora
Diz querer ou não querer.
Não quero senhor ou amo
Com um ar paternalista
Que diz quando reclamo:
— Tu és só para ser vista.
Não quero que o meu ventre
Se torne propriedade
De todo e qualquer biltre
Que queira posteridade.
Não quero as asas pregadas
Na cruz da servidão;
Entre paredes fechadas,
As ambições, na solidão.
Não quero ser escrava do lar —
Limpar, lavar, passar, cozinhar.
Quero que a minha alma avance
E os picos dos sonhos alcance.
Quero ser dona do meu corpo,
Da minha alma e do meu ser,
Sem implorar todo o tempo
Por permissão para viver.
Quero carreira, respeito,
Com salário merecido,
Sem ter que pagar imposto
Por mulher ter nascido.
Quero estender as minhas asas
E em liberdade voar,
Sem nelas sentir as mágoas
Das talas usadas para as quebrar.
Quero ser eu mesma e mais ninguém,
Aquela que nasci para ser
E não a alma que vergaste
Para fiel escrava ter.
Este é o meu querer e não querer.
E agora, compreendeste?

Nenhuma sociedade tem o direito de assentar os seus pilares sobre almas esmagadas oferecidas em sacrifício.


