«Serei uma boa pessoa?»
Perguntas tu ao espelho,
Com medo que a resposta doa,
Com medo que te deixe vermelho
De vergonha. Ai o espelho!
Pensamento que te persegue,
Sempre à noite ao deitar,
Depois de à cama teres entregue
Crianças que perguntam a chorar:
— Pai, o mundo vai acabar?
Está nas redes sociais
Que o mar está cheio de lixo
Que era dos nossos pais.
E tu olhas para baixo
Sem saber o que dizer —
Vergonha de tanta compra,
De tanto plástico ter
Deixado o ar suster,
Sem fazer uma conjectura
De qual seria a criatura
Que por isso iria morrer.
— Pai, o mundo vai acabar?
— Não, eu não vou deixar.
A manhã chega, inesperada,
E tu com uma promessa pendurada
Que te roubou o descanso:
«Como evitar o falhanço
De construir um futuro
Sustentável e seguro?»
Olhaste em volta
E dentro cresceu a revolta,
Sentimento de impotência
Para tamanha diligência.
Fechaste os olhos, respiraste
E de rompante atacaste:
O que era de plástico, fora!
Tudo de novo se decora
Até que na casa inteira
Só haja pedra e madeira,
Vidro, cerâmica e metal,
E até o cabedal já ser vegetal!
Sentas-te cansado,
Com a pequenada ao teu lado,
Que olha com olhos tristinhos
Para a consola dos amiguinhos,
Mas para isso já não há dinheiro:
Foi para a madeira por inteiro.
«Serei uma boa pessoa?»
Perguntas tu ao espelho,
Com medo que a resposta doa,
Com medo que te deixe vermelho
De vergonha. Ai o espelho!
Depois de tanto sacrifício
Não vês nenhum indício
De que algo tivesse mudado:
A ninguém tinhas inspirado.
Fosse por falta de meios,
Ou por não terem receios —
«Isso do clima do planeta
Estar a mudar é grande treta» —
As pessoas não se moveram,
As pessoas nada fizeram.
Por sua vez, as empresas —
Talvez por falta de ideias
Ou de biomateriais
Em quantidades colossais —
Juntaram-se à inércia global,
Já que ninguém lhes levava a mal
Por continuarem a enriquecer
Sem mudanças terem que fazer.
Com tanta indiferença,
Com tanta falta de crença,
O planeta deveras doente —
Que estava cada vez mais quente —
Entrou em grandes convulsões,
Vieram os furacões
E as chuvas torrenciais
Que levaram os milheirais
E todas as outras culturas:
Acabara-se a fartura.
E a criançada com fome
Grita à noite, não dorme:
— Pai, o mundo vai acabar?
E tu, com lágrimas escorridas,
Dizes as palavras tremidas:
— Não, eu não vou deixar.
A chuva caía, diluviava,
E tu contra a corrente lutavas
Para atravessar a estrada
Naquela — mais uma — madrugada.
Sem tempo a perder
(Dormir era morrer)
Recusaste o último suspiro,
E, num esforço sobre-humano,
Não abandonaste o empenho:
Da garganta tiraste um grito,
Da necessidade, o engenho.
Naquela bancada que te conhecia
Por lá estares todo o dia,
Sem um na semana falhares,
Nem uma de férias tirares —
Naquela bancada com balões,
Enfeitada com cores e soluções,
Onde provetas e copos de medição
Estavam ali sempre à mão —
Colocaste a gota que faltara
Na mistura que lá deixaras
Quando o cansaço te venceu
Já a noite beijava o céu.
E foi uma explosão de alegria,
Não sabias se choravas ou se rias:
Tinhas encontrado a poção
Que para tudo era a solução!
Um pingo numa semente
De carvalho ou castanheiro
Lançava-a numa fúria urgente
De chegar ao candeeiro.
E caíste num pranto:
Depois de lutares tanto
Arranjaras finalmente
A forma daquela semente
Ser uma árvore crescida
Antes de meia volta volvida
Da Terra à nossa estrela.
Era a coisa mais bela!
Com grande estrondo, o Telejornal
Deu a notícia sensacional
E nada mais foi mencionado,
Tamanho era o achado.
— Matéria-prima para sempre!
Gritava a indústria crente
De ter o biomaterial
Que lhes era essencial.
Com os carvalhos a saltar
Em tudo quanto era lugar
Refez-se a nossa floresta,
Toda a indústria que vinha desta,
E onde antes plástico havia
Agora só derivados se via
Da madeira de carvalho,
Que estava em todo o lado,
E até um composto de lenhina
Tirou o lixo que o mar tinha!
Era a bio-economia!
E a nação enriquecia
Sob os olhares de despeito e espanto —
Como um país tão pequeno
Conseguira fazer tanto? —
Que o mundo lhe dirigia.
Não estando sozinho neste barco,
E para aumentar o impacto
Desta enorme descoberta,
O país fez a oferta
E deu ao mundo em sofrimento
Um mundo de conhecimento.
Num breve piscar de olhos
Com carvalhos aos molhos
Em todos os hemisférios
Deram-se passos sérios
Na saúde do planeta,
Que rapidamente se aquieta:
Já de febre não sofria,
Nem furacões ou chuva fazia
Em demasia…
Nos mares, só vida havia.
E na boca de toda a gente
O teu nome estava sempre,
Apontando-te na rua,
Deixando a tua face rubra
Quando quem te via ali
Gritava «És o herói que eu pedi!»
Multiplicaram-se as honras
Por tudo quanto eram terras
E em Belém levaste o louvor
De seres chamado comendador.
— Merecias era uma estátua
Para homenagem perpétua!
Que foi rapidamente erguida
Na praça mais querida
Onde todos deixavam flores
De todas as espécies e cores,
Para glorificar o homem deste país
Que salvou o mundo por um triz.
— Este é o meu avô!
Diziam nada discretos
Aqueles que eram teus netos,
Teus bis, tris, tetra,
Penta, hexa et cetera,
Descendentes em linha recta,
Orgulhosos de o ser,
Do teu nobre sangue ter.
«Serei uma boa pessoa?»
Perguntas tu ao espelho,
Que desta vez entoa
Sem esperar que sejas velho:
«Sim, és!». Até o espelho.
O tempo correu como costuma,
Sem celeuma nenhuma.
Passam os anos em cadência,
Evolui a ciência,
Evoluem as leis
E assim se chega
Ao século vinte e seis,
Onde um cientista curioso
Se entretinha a estudar
O sistema nervoso
Do reino vegetal.
«Será que consigo
Falar com uma planta?»
Quedava-se ele pensativo
Em ansiedade tanta.
Com o cérebro cheio de dúvidas
Lançou-se ao árduo trabalho,
Ligou eléctrodos e sondas
Ao tronco dum carvalho.
Fechou os olhos um segundo
Para saborear o momento
Antes de ligar o botão
E ouvir a bela canção
Que a árvore cantaria,
Mas em vez da doce melodia
O que ele ouviu com horror
Foi um profundo grito de dor.
— Assassinos sem perdão,
Monstros torturadores
Que nos lançaram ao chão,
Que nos fizeram passar horrores!
Era tão aflitivo e brutal
Aquilo que se ouvia
Que o investigador do vegetal
Terminar aquilo queria.
Mas ao tentar desligar a máquina,
Um curto-circuito aconteceu
E quase de forma mágica
A todas as árvores, voz deu.
Os gritos fizeram-se ouvir,
Dos carvalhos, no mundo inteiro
E por mais que os tentassem suprimir
De gritos continuava o ar cheio.
Sem soluções para propor,
E com os ouvidos cheios de dor,
As pessoas desesperavam
E uma saída imploravam.
Num desses dias de aflição,
Com os tímpanos em explosão,
Um turista passou na rua
E viu a estátua que era tua.
— A culpa é dele, aquele monstro,
Que fez a poção que foi o lastro
Da exploração dos carvalhais,
E das atrocidades brutais!
E não foi preciso mais
Para que as flores desaparecessem
E na tua estátua escrevessem
«Assassino», «Herbicida»,
«Ganancioso», «Arboricida»,
«"Especicista"», «Torturador»,
«Das árvores, explorador».
Palavras pintadas por pessoas
Que se passavam por boas,
Mas que na vida nada tinham feito
Para que o mundo fosse perfeito —
E, por moda, apontavam dedos:
Sacrifícios, esses, nem vê-los —,
Aqueles falsos moralistas
Que apenas queriam dar nas vistas
Em todas as redes sociais:
Os heróis actuais.
Veremos o que de cada um
Se dirá no século trinta e um.
Como aquilo não bastava
E a raiva em bola aumentava
Viraram-se para os teus herdeiros,
Dedos a apontar certeiros,
Para que os velhos carvalhos
Deles afastassem os galhos
E os lançassem em fúria
Contra quem herdara a tua glória.
Dedos, galhos, galhos, dedos
Todos em riste apontados
Para os únicos — assim afirmavam —
Seres que sacrificavam
Outras vidas deste planeta
Para atingirem a sua meta
De sobrevivência.
Ai, vil existência!
— Vocês têm que compreender
Que na altura do que se conta
Era normal recorrer
À exploração da floresta.
Foi uma solução natural!
— Assassinos sem igual!
— Não sabíamos que era errado:
A humanidade sempre o fez.
Nunca ninguém se terá queixado
Da beleza e robustez
Da madeira do soalho
Que em todas as casas vês.
Não era monstruoso:
Era feito normalmente.
— Tinham sistema nervoso
E não viram que eram conscientes?
Diziam com ódio e histeria,
Desprezo, inveja e cinismo,
Roídos por terem falhado na história
Aquele momento de heroísmo.
— Com eles para os tribunais!
Disseram estrangeiros e carvalhais.
Acossados por todos os lados
Viraram-se os acusados
Para quem tinha a obrigação
De defender a nação,
Exigindo um justo julgamento
E não um público linchamento:
Do seu povo, os dirigentes.
Mas o Presidente da República —
A quem competia garantir
Que a sua nobre gente
Fosse julgada justamente
Com base na época e na moral
Que existia a nível mundial
Na altura dos acontecimentos
(E não na moral vigente
Quando se tomou conhecimento
Da existência do sofrimento
E da sua consequência):
A Justiça na sua essência —
Queria ficar para a história
Envolvido em vã glória.
Ora defender aquele país
Num mundo em que a matiz
Era de condenar para purgar
A culpa e a incapacidade
De soluções encontrar,
Não lhe trazia a publicidade
Que ele almejava alcançar.
E sem pensar duas vezes,
E para seu próprio benefício,
Ofereceu então o seu povo
Ao fogo do sacrifício.
Pois remar contra a maré
Não põe uma estátua em pé —
Pelo menos não em tempo útil
Para que uma mente fútil
Possa ver a ser erguida
A estátua tão pedida.
E deixando os lesados ser jurados,
Anunciou com autoridade:
— Devemos, sim, ser condenados
Por crimes contra a "arboridade"!
Devemos dar indemnização
De toda a seiva deitada ao chão
Pelos nossos vis antepassados.
E foi assim que o povo descobriu
Ser verdade o que sempre sentiu:
Que uns são filhos, outros enteados,
Mas eles eram órfãos abandonados.
Ora ouvindo tudo isto,
As faias, os mognos e os pinheiros —
Que se lembraram dos veleiros
E de mais um longo registo —
Quiseram também apresentar
Uma acção judicial,
Mas nessa altura foi-lhes dito
Que a queixa deles tinha prescrito,
Declarando o solene tribunal,
Dirigindo-se a todo o grémio,
Que a exploração florestal
Tinha apenas meio milénio.
E assim começou o julgamento
De gente perdida no tempo
Que nunca soube que era errado
Ver um carvalho a ser cortado.
Com tanta pressão no ar
Os juízes foram rápidos
A deliberar e anunciar
O veredicto de culpados
E que as pessoas de agora
Deviam pagar pelos pecados
Daqueles que os cometeram
Quando eles pecados não eram.
Os carvalhos em triunfo rugiram
E os estrangeiros aplaudiram:
— Não foram heróis de coisa nenhuma,
Não deram ao mundo a sua fortuna:
São apenas grandes vilões
Desprezados pelas outras nações! —
Que já não têm que estar gratas,
(Disso já estavam fartas),
E aproveitaram para cuspir
E a nada reduzir
Aqueles antes no altar:
Aí que prazer, vê-los cair e espezinhar!
Dirigiram-se então à praça
Onde se celebrara a tua graça
E, com raiva, a tua estátua
Ao mar, sem dó, foi lançada —
Àquele mar que tinha vida
Porque não saíste da bancada
Nem um dia.
E no lugar deixado vago
Pela turba naquele largo
Ergueu-se o monumento
Ao Presidente do desalento,
Aos pés do qual ninguém quis pôr
Nunca, uma única flor.
Como parte da sentença
O Presidente concordou
Que nos livros houvesse mudança
Sobre a história que se contou.
Permitiu que os lesados
E forasteiros descarados
Ditassem as regras do jogo
Ignorando disso o perigo.
Os livros antigos foram queimados
E por outros substituídos,
Onde tudo se desenquadrava
Pois a história se truncava:
Deu-se só o bocado talhado
Que os carvalhos queriam contado,
Deixando-se que verdades meias
Fossem ditas aos vossos filhos:
— Tu tens sangue podre nas veias
E os outros são todos anjinhos!
Os olhos das vossas crianças
Nunca mais deixaram o chão,
Culpadas de todas as matanças
Que nos livros de história estão.
Auto-estima sem esperança,
Nunca mais houve grande nação.
Fica no ar a questão:
Quem da posteridade —
Quiçá daqui a quinhentos anos —
Pagará por esta barbaridade?
Com o bode encontrado
Nada na vida foi mudado —
A não ser as consciências
Que agora já não pesavam —
E os carvalhos continuaram
A ser desprezados e cortados
Porque não ocorreu ao mundo
Que o que tinha de ser feito
Não era culpar quem já morreu
Ou quem na história lhe sucedeu,
Mas, sim, tratar os carvalhos com respeito
No século em que se sabia
Que tê-los em vasos e cortá-los doía.
Onde está o espelho?
E no fundo do mar jazia
A tua estátua vandalizada
Cuspida, partida, esquecida
Por gente que procurava
Da culpa, uma rápida saída
Ou nas redes, uma íngreme subida.
A tua estátua.
A estátua de quem lutou
Pela vida e por comida
Com as armas que tinha
Quando o ar se aquentou.
A estátua de quem não desistiu
E nem a si um minuto permitiu
De descanso, numa luta que sabia
Ser para não deixar sem vida
A nossa Terra que vida nos deu.
Esquecida, partida e cuspida,
No fundo do mar jazia
A tua estátua.
A estátua de quem quis, simplesmente,
No seu tempo, ser bom pai e boa gente.
— Pai, o mundo vai acabar?
— Não, eu não vou deixar.

Não se pode julgar povos e pessoas com base em valores morais ou leis inexistentes na altura em que viveram. Tudo deve ser visto à luz da época.

Nem a escravatura nem a colonização foram invenções do século XVI ou europeias. Ambas são um continuo na história mundial da humanidade, existindo sobre diversas formas em todas as culturas do mundo e sempre com impactos negativos nos escravizados e colonizados. Não existe, por isso, reparação histórica possível: foram perpetradas na altura em que essa era a lei moral vigente, todos os povos já estiveram dos dois lados ao longo da sua existência e o tempo não volta para trás.
A única reparação possível é a reparação da moralidade humana, ou seja, a sua evolução de maneira a que todos os povos se olhem como iguais e se respeitem mutuamente. Só assim se impedirá a repetição contínua das páginas negras da história.

