Sob o Luar de Outono

A maçã envenenada

 

— Tenho fome, o dinheiro não chega.
No trabalho eu tive uma pega,
Mas o patrão não me aumentou
Em vez, estrangeiros contratou.
Queixou-se o trabalhador ao santo
Que de Bento não era tanto.
— São as leis da economia.
Ou se baixa ou lhe dão guia
Para novo emprego encontrar.
Do que se está a queixar?
— Empregos, não há…
— Vá emigrar.

 

— Estou na rua, não tenho tecto;
A conta está a descoberto;
Quero juntar-me e ter filhos,
Mas não os quero maltrapilhos
Nem a dormir debaixo da ponte
Sem futuro no horizonte.
— A lei da oferta e da procura
Não é de agora, já perdura.
Há casas aí para comprar
Só tem que saber negociar.
— Para comprar, não tenho dinheiro
Isso é só para estrangeiro  
Que nem para cá vem viver.
A injustiça tem que morrer!
Tenho frio, não aguento mais.
— Volta para casa dos teus pais.

— A saúde é um direito!
Viram o que se tem feito?
Nada! Tudo para o privado
De dinheiro acumulado.
— Não há médicos suficientes
Para os hospitais e doentes.
— Formem mais! Porque não?
— A Ordem pôs um travão.
— Mas quem manda: vocês ou ela?
— É para ver na sequela.
— E entretanto o que fazer?
— É simples: não adoecer.

— A nossa língua! Ai que dor!
As pessoas não têm pudor
De, em frases portuguesas,
Meterem palavras inglesas.
A nossa língua é doçura —
Nossa história, nossa cultura! —
E agora está a morrer.
O que tencionam fazer?
— Não compreendo a questão
Portugal é uma nação
Com uma cultura milenar
Que não irá terminar.
Morre o português,
"Faz-se cultura" em inglês.
Não vejo o problema:
Também é língua materna.  
— Não é nossa!
— Temos pena.

— E o que é isso de incluir
(Sem a mim ninguém me ouvir!)
À força, no fim, na nossa língua
Um "e" no menino e na menina?
— Não podemos deixar de parte
Os que nem em Vénus nem em Marte
Encontram o seu lugar.
— Mas isso que estás a falar
São coacções da sociedade:
A língua não tem maldade.
Ponham fim às pressões sociais,
Soltem as liberdades pessoais:
A quem sou, fazer-se festa
Sem etiquetas na testa;
E para a língua sirva de guia
A nossa biologia.
Mas até tal se conseguir,
Pára para me ouvir,
Pois o neutro já existe
No masculino, não viste?
Pergunta ao linguista:
Não estou a ser fascista!
Não é uma ideia chanfrada
É opinião fundamentada!
— Preconceito! Não vales nada!

Neste século tão avançado,
Com a internet em todo o lado,
A Senhora Democracia
Que, se dizia, a todos ouvia,
Com o peso da idade
Perdeu tal capacidade:
Foi embora o heroísmo,
Ficou um profundo autismo.
— Eu ouço-te — disse a serpente
Colocando bem à frente
Uma linda maçã dourada.
— Ó gente ignorada!
Eu vou resolver os problemas
Dessa imensidão de temas.
«Como?» não é pergunta,
A fome já era muita
E a dentada foi dada
Na maçã envenenada.

 

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  O desespero que surge quando se sente que não se é ouvido nos temas que nos tocam profundamente é terreno fértil para o veneno demagógico daqueles que fingem ouvir.

 

 

 

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